As fantasias sexuais que brincam com as
peças do vestuário feminino incentivam a imaginação.
O erotismo vive do que alimenta o prazer.
Por Cristina Flora
O uso de artifícios, e neste
caso de roupas e acessórios femininos, para a realização
de diversas fantasias sexuais é quase desconcertante. Este
mundo alimenta-se da imaginação de todos: dos que
inventam os trajes, aos que os dispõem por catálogos,
passando pelos próprios consumidores que vestem as roupas mais
ou menos convencionais. Podemos encontrar e surpreendermo-nos com uma
passerelle original, povoada por incríveis modelos: a inocente
colegial, de mini-saia plissada, camisa branca e meias de algodão
até ao joelho; a empregada, com o seu body e luvas em tule, de
licra branca transparente com detalhes em viés preto,
mini-saia pregueada e arco para a cabeça; freira noviça,
de hábito preto e branco para o rosto, e micro-saia com ajuste
em cetim; coe-lhinha com rabinho pompom e muito mais.
Catalogadas com todos os devidos e
reduzidos adereços, desfilam a enfermeira, a noiva sensual, a
odalisca, a escrava do prazer, a pantera sexy, a guerreira tribal, a
mulher polícia ou militar, a viúva, a bombeira em
vinil, a tigre e a egípcia, a diabinha e a ingénua
capuchinho vermelho. Toda uma galeria de personagens que despertam a
atenção e a libido dos adultos, já que o
Carnaval que se propõe é para ser vivido a dois e entre
os lençóis, na privacidade do lar. E, apesar de não
serem tão expressivas ou numerosas, as fantasias para uso
masculino também existem: o fato-macaco azul do
homem da garagem, o padre, o
super-herói, o escocês e a sua saia, que segundo a
tradição dispensa os shorts como nos demonstra um
tentador anúncio de whisky –, são alguns exemplos.
Além das fantasias comercializadas, há ainda aquelas
que se improvisam em casa, com uma ou outra peça mais
extravagante ou erótica. E, depois, não é
obrigatório que se entre numa sex-shop. A questão é:
será normal?
Para a psiquiatra Luísa
Gonçalves, o uso de peças de roupa de forma a compor
uma fantasia sexual passa pelo proibido: “Tudo o que é
interdito – no sentido da hospedeira ou da colegial que é
menor, da Lolita – aumenta a libido. Há um desejo que tem de
ser cumprido. Se houver uma pessoa que vista uma vestimenta de alguém
interdito pode suscitar aumento da libido. Trata-se de um interdito
associado a uma imagem não vivenciada, portanto não
passou ao acto, só imaginou, não pôde
concretizar, e mais tarde pode vivê-la em fantasia. É o
deslocar de antigos sonhos eróticos comuns aos homens. São
coisas recalcadas, que se cruzaram na vida de cada homem e às
quais ele não teve acesso – a adolescente, a criada, a
bombeira. Na autoridade não se toca, é uma fonte de
respeito, pode desejar-se mas há que conter. Ora, transferindo
a farda para o objecto de desejo, isso amplia a libido.”
Poderemos então brincar aos
interditos sem que isso seja considerado patológico? “Dentro
do campo sexual, ter fantasias – até as fantasias banais do
romântico que não passam por acessórios mas pelo
cenário belo de um hotel em Marraquexe, ou uma ilha deserta,
por exemplo – é considerado aceitável e cultivado por
nós ao longo do tempo. As fantasias com a roupa são
normais enquanto jogo de brincadeira, uma experiência nova de
formas de encontrar prazer ou de se relacionar. O jogo pelo jogo é
perfeitamente inócuo. Passam a ser patológicas quando o
acto sexual só é conseguido com a existência de
um objecto extra. Se além dos dois seres humanos, o acto
sexual precisa de qualquer objecto – seja ele o salto alto preto,
uma rosa na boca ou uma chibata –, para todos os efeitos, isso já
entra no campo da patologia. Há uma transferência do
desejo do outro para o objecto, ou seja, o outro é que passa a
ser complemento”, explica a psiquiatra.
As mulheres fantasiam-se mais do que os
homens. Aliás, o rol de possibilidades para isso, como vimos,
é extraordinário. Quem veste uma fantasia está a
provocar, em primeiro lugar, o olhar do outro. Mas para qual dos dois
sexos será mais importante este estímulo visual? Nos
homens, o facto de verem, mesmo sem tocarem, é o suficiente
para que o gatilho do desejo seja disparado. Mas será ele mais
receptivo a excitar-se com este tipo de fantasias ou a mulher também
tem prazer em fantasiar-se para o parceiro? “A mulher, ao longo dos
tempos, foi muito o objecto de prazer do homem, embora existisse uma
disjunção: a mulher bem comportada em casa e a amante
com a qual se podia ter prazer. Havia uma cisão imposta pelo
respeito. O que é que acontece? O homem está mais
ligado ao fabrico deste tipo de objecto. Adora, por exemplo, ver uma
mulher colada em vinil. As mulheres são mais inibidas, não
de concretizar a fantasia do homem, mas as suas próprias
fantasias. Normalmente, estão relacionadas com o herói
romântico. O cozinheiro também é um grande viagra
para a mulher, mas a fantasia número um são os padres,
uma vez que se trata do inacessível. O padre ou os seus
superiores hierárquicos, quanto mais para cima melhor. O
primeiro-ministro, por exemplo. O poder é um grande
afrodisíaco. Os lugares de poder são muito libidinosos,
estimulam muito o impulso sexual da mulher.”
Para Luísa Gonçalves,
estas fantasias mais chocantes pela ousadia – o padre, a freira, a
viúva ou até a noiva – são escolhidas pela
transgressão: “O sexo transgressor, no sentido de duplicar o
pecado, transgredir a norma, aumenta a libido. As fantasias vêm
muito do inconsciente. Porquê a noiva e não a bombeira?
Tudo isto tem a ver com o traço de personalidade da pessoa que
escolhe, tem a ver com vivências pessoais e fantasias. Não
é assim tão claro o porquê de uma escolha e não
de outra. A da noiva significa manchar o branco, a pureza, o
desvirginar o outro, o ser o primeiro a pecar com o outro. No
masculino, há muita gente que tem a fantasia da virgem, de
desbravar a floresta negra freudiana que é a mulher. A
prostituta virgem é paga a preço de ouro.”
De facto, é difícil
explicar uma fantasia. Dizer, por exemplo, “gostava que esta noite
te vestisses de Tarzan” não deve ser fácil. Mas
porque nos sentimos tão ridículas ou temerosas da
reacção do parceiro? “As fantasias não surgem
do nada. Tal como os sonhos e o pensamento são o nosso espaço
de liberdade, o nosso imaginário. O abordar esse tema é
revelar ao outro partes de nós, e daí, um certo cuidado
ao fazê--lo. As pessoas temem a exposição. Tem de
haver uma intimidade, uma cumplicidade, uma propensão para o
jogo que se intui no outro.”
Fantasiar algo é diferente de
querer que a sua realização aconteça de facto.
“Uma coisa é o condicional que é um verbo muito
constrangedor – eu faria, eu seria, eu imaginaria, etc. –, é
o verbo das pessoas que não ousam estabelecer patamares de
objectividade prática para atingir os objectivos e se refugiam
no sonho como forma de não se deixarem abater pelo quotidiano
repetitivo. A fantasia na cabeça, a do condicional, é
uma coisa, e outra coisa é a capacidade de tentar pôr em
prática uma fantasia com estratégias claras. Por
exemplo, se eu fantasiar com o príncipe Carlos, isso é
impossível, mas com o vizinho do lado, usando uma estratégia
adequada, eventualmente é possível. Há diversos
níveis de fantasia: as irrealizáveis e que não
passam disso, de um tubo de escape da mente, e há a tentativa
de pôr o sonho em prática com uma certa objectividade”,
explica a psiquiatra.
Com fantasias realizáveis e
outras apenas no plano da imaginação, interrogamo-nos:
afinal, para que servem as fantasias? “A sua função é
essencial. Começa na nossa infância por fazer parte do
nosso mundo pessoal, o que é imprescindível para um
crescimento enriquecido, com uma cognição e uma
capacidade de empreendimento ajustadas. Mais tarde, é o nosso
refúgio secreto, no qual tudo, sem excepção, nos
é permitido no campo do pensamento. As pessoas têm a
grande capacidade de fantasiar, de sair do prático, do
concreto, do básico, para o reino onde tudo é possível,
deixar a mente liberta. Quem não tem esse potencial de
abstracção eventualmente é pobre do ponto de
vista mental”, considera a psiquiatra Luísa Gonçalves.
Podemos, então, encarar a
fantasia como
um remédio contra a
previsibilidade, a rotina? “O refúgio é uma manobra
mental. As pessoas têm de ter cuidado com os hábitos de
rotina, nos quais se inserem de uma maneira adormecida. Ficam
anestesiados e anestesiantes. Repetem-se, ficam quase com o gesto
automático. Estão tão cansadas, tão
abstraídas e esvaziadas que os dias sucedem-se e o tempo
perfura-as mas elas não passam pelo tempo. E é uma pena
porque o tempo é tudo o que temos na vida. Para bem da
sanidade mental, há que defender o nosso refúgio
último, criar espaços para sair do automatismo, do
cumprimento dos deveres para ter prazeres. Transcender a rotina.”
Uma fantasia normal e saudável
pode reforçar o relacionamento do casal, desde que não
existam humilhações, que não se force o parceiro
e surja de uma forma espontânea. “Há pessoas que fazem
esta fantasia simples: têm uma casa fantástica e vão
dormir uma noite para um hotel. Trata-se de uma fantasia inócua
e engraçada. Se para existir sexo tem de haver sempre um
recurso externo ao casal, então há que parar para rever
e analisar a situação. Há muitos casos assim, em
que sem as botas nada funciona. Trata-se de fetichismo, sendo o
fetiche a fixação num objecto. Por outro lado, se o
objecto for usado pontualmente é um fait-divers, uma
brincadeira.”
As fantasias sexuais são boas
porque:
• Aumentam a cumplicidade e a
intimidade
• Diminuem a hipótese de
infidelidade
• Fortalecem a ligação
entre o casal
• Tornam o outro mais atraente para o
parceiro
• Combatem a rotina
• Aumentam a excitação
e a frequência de sexo
• Dinamizam a actividade sexual
• Libertam sentimentos e sensações
recalcadas
• Amadurecem os indivíduos
• Aumentam a auto-estima
• Asseguram o potencial erótico
de cada um
• Aumentam os estímulos
sexuais e o prazer
• Aliviam a ansiedade
• Despertam uma nova disponibilidade
para o erotismo
• Produzem uma sensação
de relaxamento e de bem-estar
• Expandem as possibilidades eróticas
• Permitem captar melhor os limites,
desejos e capacidades na cama
• A performance sai sempre a ganhar
Para um casal viver uma fantasia sem
medo ou desconforto “é necessário o conhecimento um
do outro, uma cumplicidade grande e,
sobretudo, não haver reserva de dizer: a partir daqui, isto
incomoda-me. As pessoas têm de ter honestidade. Não se
devem ferir susceptibilidades, exercer pressões ou
humilhações. Enquanto for bom para os dois, há
muita coisa para brincar e fantasiar, e variar faz bem. É um
sinal de criatividade, existência de prazer e desejo em estar
vivo. O impulso sexual está muito ligado ao impulso de vida”,
esclarece
a psiquiatra Luísa Gonçalves.
As fantasias sexuais têm assim
mais um apelo, além do desejo do sexo extra rotina. Elas
conseguem – se forem vividas como um jogo confortável –
tornar os nossos dias mais coloridos, melhorar a nossa disposição
e fazer com que a nossa vida nos pareça menos previsível
e mais divertida.